CAPITÃO FAUSTO - Informação Acerca Do Artista

Se fosse eu a mandar mudava já o nome desta banda para Os Incríveis Capitão Fausto. E incrível é de facto o primeiro adjectivo que me vem à cabeça depois de ouvir o novo álbum “Pesar O Sol”.

Depois de “Gazela”, um extraordinário primeiro álbum em que a banda sintetizava as suas influências e ao mesmo tempo recolhia de forma urgente algumas das texturas da paisagem indie rock de então, os Capitão Fausto regressam agora em 2014 com um álbum igualmente urgente mas mais focado em direcção ao Universo sónico que faz vibrar o grupo desde a sua génese.

Em “Pesar O Sol” prosseguem os ritmos frenéticos e os riffs acutilantes de uma banda jovem vibrante mas, ao mesmo tempo, já se encontram os pormenores que fazem deste conjunto de temas um trabalho mais maduro. Seja pela produção mais detalhada como pelos mais variados sons, tanto nas guitarras como nos órgãos e até nas reverberações com que a voz do Tomás é tratada. E claro, os longos instrumentais que povoam as canções são simplesmente inacreditáveis, com inúmeras alterações de ritmos, com a banda a revelar todo o seu talento e técnica. Pujança extrema na bateria de Salvador Seabra, guitarras másculas de Manuel Palha e Tomás Wallenstein, baixo seguro de Domingos Coimbra e os órgãos cósmicos de Francisco Ferreira.

Em textos deste género costuma-se chamar a atenção para a arma secreta da banda. Neste caso apetece dizer que todos são a arma secreta, cada elemento com o seu momento para brilhar, mas uma verdadeira máquina no todo.

E nas nove músicas e respectivos 49 minutos, os Capitão Fausto ditam as regras logo desde início, colocando-se em ombros de gigantes do piscadelismo e rock progressivo dos anos sessentas e setentas, internacionais e nacionais. Ouvem-se ecos do Quarteto 1111, do José Cid progressivo, dos Pink Floyd, King Crimson ou Gentle Giant. Os Fausto coabitam também sem qualquer problema com as cores de uns Tame Impala, Flaming Lips ou com o kraut juvenil dos TOY.

Mas todos estes nomes são pequenas coordenadas para um mundo mais vasto que os Capitão Fausto apresentam, distantes planetas que apontam para o futuro e que ao mesmo tempo assentam firme numa ideia muito própria de portugalidade. A banda nunca fica refém das suas inspirações, pelo contrário, parte desse porto para outras paragens, definindo-se a cada segundo que passa de cada tema.

Aqui não há medo das convenções, do poderio editorial de qualquer selo discográfico. Não! Em “Pesar O Sol” existe só a vontade em arriscar, em ir mais longe, desafiando o típico single de três minutos ou estrutura clássica de uma canção que procura com insistência os refrões. Neste novo álbum, a banda faz uma persistente pesquisa sónica, desafiando-se nessa exploração até ao limite. Basta ouvir logo a entrada do disco em “Nunca faço nem metade”, com a bateria a cavalgar por cima de riffs poderosos e sons de órgão espaciais. Escute-se por exemplo “Flores do Mal” e a sua recta final com um uma composição de guitarra a pensar em qualquer meditação cósmica, isto depois de quatro minutos de rock intenso e progressivo. Ou coloque-se “Lameira” em repeat, com os seus oito minutos divididos por diferentes sequências, com a mestria e técnica de cinco jovens que passaram claramente para outro nível.

São muitas as dinâmicas no álbum, que nunca descansa quem o ouve. Em todas as esquinas há uma surpresa para escutar com atenção, seja a tentar decifrar as letras do Tomás ou a viajar para outra dimensão com os longos instrumentais que às vezes desejava que não acabassem, qual mantra curativo.

Os Capitão Fausto fizeram uma obra intemporal e que abre o futuro do grupo em todas as direcções. Tudo é possível e acredito que com eles tudo será. Não há muito mais a dizer… basta carregar no play e embarcar na trip colorida dos Capitão Fausto. E pesar o Sol é exactamente uma meta possível para a criatividade destes cinco rapazes que a partir de agora passarei a chamar de Os Incríveis Capitão Fausto.